Friday, March 11, 2011

Jornalismo Rasca

Vi há pouco uma peça da TVI sobre as reacções dos jovens ao discurso de Cavaco Silva, particularmente nas redes sociais, referindo que "a maioria dos comentários do facebook é desfavorável ao presidente", seguindo-se a transcrição de comentários apanhados na página da Manifestação da Geração à Rasca.

Não vou sequer falar da forma como a peça encadeia e equipara o discurso de posse do Presidente da República, ou pelo menos a parte em que apela à mobilização dos jovens, com uma dúzia de comentários anónimos no tom habitualmente inflamado e trauliteiro que a rapaziada utiliza para o arremesso de postas de pescada no Facebook (um dos destaques foi "não acreditem num homem com dupla personalidade"). Esse não é, apesar de tudo, o maior problema.

O problema é como a notícia se começa por basear numa premissa errada, para não dizer falsa, e depois deriva para a pura e simples distorção dos factos. Começando pela premissa, confesso que mal a introdução começou a peça prendeu toda a minha atenção, porque queria perceber como tinha a TVI apurado a opinião "do facebook", atendendo à forma como esta rede social funciona, que leva a que a maioria das interacções entre utilizadores decorram numa esfera privada.

Depois de um momento a interrogar-me se a jornalista da TVI teria muitos amigos no facebook, e a disposição de lhes violar a privacidade, constatei que, como é óbvio, o que procuraram foi opinião reflectida nas páginas públicas, acessíveis por qualquer um. E aqui começa a distorção: em vez de percorrer várias páginas, com diferentes inclinações e tendências, a reportagem focou-se na página da "Geração à Rasca", o que equivaleria, em termos práticos, e ir para a sede do Bloco de Esquerda em Lisboa fazer perguntas sobre José Sócrates, e depois dizer que "os lisboetas estão fartos do Primeiro Ministro".

Claro que a maioria das pessoas não pensa demasiado nisto, nem questiona as premissas das reportagens que lhe são apresentadas. Alguns não conhecem sequer o suficiente dos factos para distinguir "o facebook", a tal coisa que os árabes andam a usar para se revoltar, de uma página de três jovens que decidiram organizar uma manifestação e têm tido, atendendo ao descontentamento generalizado da população e ao momento que o País vive, uma grande exposição nos media. Em suma, a maior parte vai comer o peixe estragado que a TVI lhes serviu como se fosse um belíssimo cherne grelhado no Mercado do Peixe, e isto é uma violação grave da responsabilidade que assiste aos media.


O que é preocupante em tudo isto é a forma como fica demonstrada a facilidade com que se cria opinião sem correspondência com factos, e a forma inadmissível — e nenhuma das duas explicações possíveis, incompetência ou má fé, é tolerável — como uma chefia de redacção deixa uma peça destas ser feita ou, mais provavelmente, encomenda a sua preparação com uma mensagem, ou preconceito, definida à partida, utilizando uma recolha superficial dos factos para a travestir em notícia.

Nesta altura em que todo o protesto é aparentemente legítimo, é frequente ouvirmos atacar a falta de qualidade do nosso establishment político. Este raciocínio tem uma armadilha evidente, que é impedir-nos de ver que os políticos, como aliás os media, são sempre o espelho da sociedade que temos. Se aceitarmos este tipo de jornalismo rasca como normal, e este tipo de abordagem ignorante, simplista e preconceituosa como aceitável, então não vale a pena queixarmo-nos muito: seremos mesmo um País rasca.

Wednesday, March 9, 2011

E alguém os desenrasca?

O tema do momento em Portugal é o protesto da auto-designada "geração à rasca", marcado para este fim-de-semana. Não vou estar na manifestação, em primeiro lugar porque nesta altura já só um ingénuo acredita nos respectivos, e anunciados, apartidarismo e independência, mas também porque, concordando em absoluto que o País e o regime estão doentes, discordo igualmente em absoluto do que os promotores apontam como sendo a solução.

Para estes jovens, a situação deriva de dois problemas principais: a desigualdade de oportunidades, em que os mais novos são prejudicados face às gerações anteriores, mesmo sendo mais qualificados, e a precariedade e baixa remuneração do emprego disponível, que não dá a contrapartida justa pelo tempo e esforço que os mais jovens investiram na sua educação.

Sendo legítimos e compreensíveis, ambos os objectivos são também completamente falhos de lógica ou sustentação. Em primeiro lugar, o mito de que a vida desta geração é mais difícil que a das anteriores é, isso mesmo, um mito. Para quem, como eu, nasceu na década de 70, e viu a transformação do País provinciano e analfabeto no Portugal de hoje, o conceito de dificuldades desta rapaziada fará qualquer pessoa informada com mais de 35 anos no mínimo sorrir (um bom exemplo do que quero dizer neste texto, que vale a pena ler).

Neste domínio a culpa não é, no entanto, dos jovens que agora protestam: a raiz do mal, da aparente contradição de uma população que apesar dos cada vez maiores níveis de qualificação formal encontra crescente dificuldade em encontrar empregos bem remunerados, remonta aos anos 80, com a democratização do ensino superior que os governos de Cavaco Silva assumiram como prioridade.

A lógica era simples: se as pessoas viam numa licenciatura a via para uma vida melhor, para o bem estar económico e reconhecimento social que queriam para si e para os seus filhos, havia que alargar o restrito número de cursos e vagas disponíveis nas universidades. Se isto foi feito destruindo o ensino profissional e degradando a qualidade média do ensino superior bem além do admissível — na prática levando a que a grande maioria das licenciaturas, mestrados e até doutoramentos tenham reduzido valor ou credibilidade no mercado — gerando um exército de licenciados cujas qualificações não tinham a mínima correspondência com as necessidades reais do País, paciência. 

O que interessava é que poderíamos ser todos doutores, fosse com brilho intelectual ou pagando propinas numa das múltiplas universidades privadas que surgiram para aproveitar a oportunidade de negócio que a estratégia de Cavaco gerou, e o canudo abrir-nos-ia as portas de um emprego bem remunerado e reconhecido pela sociedade. Foi assim que chegámos a uma situação em que todos os anos fecham jornais e revistas por falta de viabilidade económica mas entram no mercado de trabalho centenas de licenciados em Comunicação Social, enquanto a falta de médicos nos obriga a recorrer à mão de obra excedentária da vizinha Espanha.

Na prática, tratou-se de uma fraude que várias gerações de portugueses — a começar pela minha, que cumpri 18 anos em 1990 — pagaram com o seu esforço, sonhos e frustração, porque se no topo da cadeia as coisas não mudaram, e ainda hoje um licenciado numa universidade de primeira linha continua a arranjar trabalho sem dificuldades de maior, é evidente que no meio e na base da pirâmide a explosão de cursos não foi, nem podia ser, acompanhada por um aumento da procura de licenciados pelas empresas, levando à actual situação em que um canalizador é mais bem remunerado que o detentor de um doutoramento, e que os  empregadores que mais se queixam de falta de oferta sejam os empresários de restauração e de outras áreas teoricamente menos exigentes em termos de qualificação.

Explicado o meu ponto de vista quanto à relação entre qualificação e emprego, passemos ao segundo ponto, ou do discurso de "acabar com a precariedade", que pode soar bem e ir de encontro aos legítimos anseios destes jovens (e não será por acaso que o vocábulo faz parte integrante do léxico de alguma esquerda) mas é algo que não se consegue por via administrativa, particularmente no País da União Europeia cuja Lei laboral mais dificulta o despedimento individual. 

Foi precisamente para combater a precariedade e assegurar o "direito ao emprego" (as aspas não são acidentais) que a Lei laboral portuguesa foi desenhada, nos anos 70, quando que toda a bússola política estava encostada ao lado esquerdo do espectro e ainda era permitido alimentar ilusões de que o emprego se protegia com leis que dificultassem o despedimento. Três décadas e meia depois, continuamos a falar de "acabar com a precariedade" como se nada disto se tivesse passado,  e como se os recibos verdes e outros subterfúgios mais não fossem que o resultado prático destas ideias e, numa ilusão tipicamente de esquerda, de que é possível criar emprego restringindo a sua extinção.

O problema de toda esta história, e ao mesmo tempo a coisa mais preocupante para todos nós como sociedade, é a forma como a demagogia explora  o ressentimento e legítima frustração de quem sente não ter perspectivas sérias de futuro, para gerar um discurso negativo, e só aparentemente contestatário do sistema, mas sem uma solução viável que não se baseie em ser contra os aparentes culpados da situação (o governo, os tiranos do patronato que não querem pagar mais ou contratar os jovens que estão a recibos verdes), numa lógica que não estaria desenquadrada do Portugal de 1975. 

O que este discurso consegue mais não é que aliviar-nos da responsabilidade que todos temos como cidadãos, a começar por quem escolheu um curso sem pensar seriamente sobre as respectivas saídas profissionais, ou por quem não perde um festival de Verão ou uma ida ao 'Lux' e se queixa de não ter dinheiro para sair de casa dos pais, seguindo a mui lusitana tendência de atribuir sempre a outrem a maior fatia de culpa de qualquer problema.

O problema, de toda esta história é que o País precisa de uma renovação total das suas leis laborais, precisa de reformar o Estado Social que não tem dinheiro para pagar, e precisa de tomar opções inadiáveis que implicarão, no curto e médio prazo, sacrifícios de todos. No entanto, se virmos o discurso dominante destes movimentos, seremos capazes de acreditar que tudo não passa de uma injustiça na distribuição do rendimento, que os jovens são mal remunerados porque as empresas não querem pagar mais, e não porque não tenham condições de lhe oferecer um contrato melhor e mais estável, e que o emprego é precário porque a Lei não o protege.

O que eles ainda não perceberam, e enquanto a demagogia predominar nunca perceberão, é que se continuarem por esta via, por mais que consigam fazer mossas no sistema, de resto inteiramente merecidas, no final do dia não haverá quem os desenrasque...

Monday, February 28, 2011

While you were sleeping

Na Líbia, o último dos ditadores alucinados afirma-se disposto a destruir o próprio País para não largar o poder, depois de ter visto o embaixador líbio na ONU votar, pela primeira vez na história da organização, uma resolução que repudia a conduta do próprio País que representa.

No Irão, uma manifestação convocada para comemorar o que sucedeu há umas semanas no Cairo redundou em centenas de prisões, blackout mediático total e relatos de repressão violenta de uma oposição que vem já, na sua forma actual, de Junho de 2009, e que conta já com largas centenas de mártires, entre presos e mortos.

Nos EUA, o conflito entre o governador do Wisconsin, republicano da ala mais conservadora do partido, e os sindicatos do sector público do seu estado ameaça marcar o futuro dos EUA, transpondo para o nível estatal o forrobodó federal de privatização e saque ao Estado que foi o consulado de George W. Bush (e a opinião não é só minha, é também a de um prémio Nobel).

Em Portugal a dúvida não é se o Governo vai cair, é quando isso acontecerá, não é se podemos fazer alguma coisa para evitar a entrada do FMI, mas apenas saber a data exacta em que se consuma a passagem do "bom aluno" dos tempos da ilusão cavaquista para o rapaz que não prestava atenção nas aulas e foi remetido para o canto da sala com as orelhas de burro.

Tudo isto está  a acontecer neste momento. Todos estes exemplos são de temas que afectam, em maior ou menor medida, o nosso futuro. No entanto, se hoje consultarmos a imprensa, as redes sociais e toda as outras formas de conversação que a nossa sociedade tem, qual será o tema mais falado? Os vestidos dos Oscars.

Acho que não é coincidência que o tema de conversa seja algo que se passou enquanto a maioria do País dormia. Deve ser a força do hábito. De tanto passarmos a vida a dormir enquanto acontecem as coisas que devíamos discutir, algum dia haveríamos de acabar por fazer o inverso, e falar do que nos aconteceu enquanto dormíamos.

Monday, February 7, 2011

O que eu (não) tenho a dizer sobre o Facebook

Facebook é uma daquelas marcas que já nos habituámos a ouvir dita depois de palavras como "fenómeno", ou "explosão". É para mim no mínimo curioso que numa terra em que toda a gente opina, sobre tudo e sobre nada, não tenha havido ainda um único opinador oficial, dos que escrevem, dos que aparecem ou dos que acumulam as várias funções mediáticas, a falar sobre a rede social que toda a gente parece usar, da mesma forma clara e contundente de que parece falar sobre quase tudo.

Poderá ser porque poucos deles têm facebook, ou pouco o usam, e não querendo transparecer o seu menor à vontade com o fenómeno evitam analisá-lo, embora isto não livre alguns paladinos da presunção de omitirem uma opinião definitiva sobre o tema, de que o melhor exemplo é o artigo de opinião, que no mínimo se pode qualificar de cabotino, de Miguel Sousa Tavares no Expresso, um acumulado de lugares comuns e pensamento convencional digno de figurar no caixote do lixo de qualquer escola de jornalismo.

Face a esta lacuna evidente seria perfeitamente normal que eu mesmo a tentasse preencher. Afinal, qualquer pessoa que me conheça sabe que também tenho a irritante tendência de opinar sobre tudo e sobre nada, e apesar de não ter qualquer inclinação ou vontade de ser opinador oficial, ou auto-designada consciência das pessoas civilizadas (que pelo menos simpatizam com safaris e romances de aeroporto), já passei seguramente mais tempo no Facebook do que a maioria deles.

Não é isso, no entanto, que vou fazer. Podia justificar esta recusa com a mais pura lógica, porque o Facebook é um meio de comunicação como qualquer outro, e por isso opinar de forma reflectida e estruturada sobre o tema faz tanto sentido, e seria tão interessante, como analisar o funcionamento do serviço de correios.

Mas não é essa a razão principal da minha recusa. Escrever uma opinião reflectida e estruturada sobre o fenómeno do Facebook exige — como a forma desnecessariamente pomposa que acabei de usar para designar o tema, sem que ninguém estranhasse, indica —  tempo, esforço, e paciência, e acima de tudo que faça um esforço de atenção, ou melhor de desatenção, procurando o que normalmente não procuro e dando importância a coisas em que normalmente não reparo, até chegar a uma versão online de Voando sobre um ninho de cucos, povoado de personagens pitorescas e episódios picantes.

Não é que não conseguisse fazer a tal análise reflectida e estruturada, mas sinceramente não me apetece. No máximo, e de alguma forma quase contrariado, posso fazer uma resenha instantânea de algumas coisas que me apetece dizer aos meus amigos, com e sem aspas, sobre os seus comportamentos no Facebook, que nalguns casos exemplificam como é possível repetir até à exaustão hábitos sem sentido, sem nunca os questionar verdadeiramente.


  • Aos que acham que tudo tem significado, do comentário espontâneo e sem reflexão prévia ao 'like' que a pessoa que era secretamente a destinatária do vosso post não pôs, esqueçam. Faz tanto sentido como pensar que se aquela miúda gira nos sorriu no trânsito é porque nos escolheu para pai dos seus filhos. Há gente que simplesmente gosta das coisas, como há gente que sorri simplesmente porque é simpática, há gente que gosta e não diz, há quem se lembre de uma música lamechas enquanto está a ler Kafka, e não a cobiçar a vossa namorada. Caso não tenham reparado, existe vida fora do Facebook, e nesse capítulo mesmo quem nos adora não acompanha ou assinala tudo o que fazemos. Aliás, se acham normal que alguém acompanhe cada gesto vosso tenho três palavras para vos dizer: procurem ajuda especializada.
  • Para os demasiado ansiosos para ver o óbvio aqui vai: as pessoas não passam 24 horas por dia atentas à sua conta do facebook, a ver o que escrevemos. Às vezes não reagem porque não viram, porque não foram ao facebook ou estavam a ler um livro. E às vezes não põem 'likes' porque não gostam. Às vezes aquele amigo de há vinte anos não respondeu às vossas palavras porque estava ocupado a trabalhar, e depois já não as viu, não porque tenha ficado chateado por terem discordado dele numa guerra de comentários sobre a novela da noite ou o vosso clube de futebol. Se são daqueles que ficam tristes quando não vos respondem, tenho outras três palavras para vocês: get over it.
  • Para os que me propõem amizade sem nunca terem trocado uma palavra comigo, e depois variam entre segredar ao amigo do lado quando de facto estão à minha frente e abordar-me abertamente com ar chateado dizendo que "tu não me aceitaste" (juro), tenho uma pergunta: de que planeta são vocês?.
  • Aos que põem 'likes' aos seus próprios posts queria dizer que não vale a pena. Acreditem que toda a gente vai assumir que gostam de alguma coisa se fizeram o post, não é preciso reforçar. E se ninguém reparou ou gostou, e por isso não pôs um like, o facto de estar lá o vosso like não torna as coisas melhores. Aliás, até as torna piores
  • Aos que sentem que têm que escrever e dizer coisas, seja lá pelo que fôr, e por isso põem tudo o que fazem, minuto a minuto, na rede, tenho uma coisa simples a dizer: não quero, de todo, saber quando foram vocês à casa de banho. Acho piada ver a fotografia do peixe grelhado que um amigo mais afortunado comeu durante um almoço na praia, mas uma vez por mês chega. Se não me mandavam telegramas antigamente quando o faziam, não me ligavam para casa a avisar, nem sequer um SMS era necessário, por que carga de água tenho eu agora que saber sempre onde vocês andam? 
  • Aos que têm uma compulsão incontrolável para postar e emitir opiniões em comentários, e vão pondo o que lhes parece interessante sem se preocuparem com a ocupação selvagem do feed de todos os amigos que têm, grupo em que o autor destas linhas de resto se inclui, digo duas coisas: em primeiro lugar, por mais que os vossos amigos digam que gostam de vos ler, e por mais relevantes e válidas que sejam as coisas que põem, ou por mais assertiva que seja a vossa opinião e corrosivo o vosso humor, e por mais que isso até possa não ser mesmo só impressão vossa, assumam que há garantidamente quem já esteja completamente fartinho de ver a vossa cara no seu feed, e quem já vos tenha votado ao mesmo 'hide' que o farmville. A segunda é que no dia em que começarem a falar para o vosso "público", ou dito de outra forma no dia em que pensem que tal entidade existe, e que a vossa opinião é algo que as pessoas consideram para tomar decisões relevantes nas suas vidas, e precisam de ler as vossas ideias para serem felizes, esse é o dia em que passaram a viver no Facebook, ou no mínimo na imaginação do Miguel Sousa Tavares.
  • Aos que põem mensagens indirectas para alguém, habitualmente um ex namorado ou namorada com quem se está em plena fúria, que variam entre o ininteligível e o explícito, só tenho uma pergunta a fazer: têm a certeza que querem ter esta conversa à frente de quinhentas pessoas?
  • Aos que fazem do facebook um confessionário queria sugerir que fossem a  uma igreja, qualquer uma serve se é para desabafar, recomendo a Católica para confessar. Vantagem: tal como no Facebook, nada é inconfessável, mas ao menos é garantido que há menos de quinhentas pessoas a ouvir os vossos desabafos. Aos que respondem a esses mesmos desabafos comentando e debatendo o acontecimento, com a sapiência e conhecimento de causa de um Gabriel Alves em dia de relato da selecção nacional de futebol, faço outra pergunta: já repararam que não estão sozinhos na sala?
  • Aos que acham o Facebook perigoso, porque potencia comportamentos questionáveis ou libidinosos, ou a mistura de ambas as coisas, quero contar uma história: quando surgiu o telefone, o grande debate na sociedade americana era como esta revolução nas comunicações punha em causa a instituição familiar, ao fazer perigar a honra das senhoras, que agora eram potencial alvo de assédio por personagens mal intencionados, que podiam aproveitar o facto destas, pobrezinhas, estarem vulneráveis a atender telefonemas de estranhos com uma liberdade que não usariam, por exemplo, a abrir uma porta de suas casas na ausência dos maridos. Se a história vos parece ridícula, pensem nisto: daqui a umas décadas é assim que a vossa opinião de hoje parecerá. O Facebook não é perigoso, tal como o telefone não era, nem a rádio. A coisa mais perigosa do mundo é o ser humano, e o cérebro que o comanda, o resto são meras ferramentas. Ninguém se torna mau ao entrar numa rede social, no máximo passa a ter mais oportunidades de o ser, e nenhuma pessoa adulta se transforma miraculosamente num adolescente desorientado e faz coisas que não queira mesmo fazer.
  • Aos que passam a vida a pôr clips de música do Youtube, normalmente dentro do mesmo género: fazer isso de vez em quando tem piada,  fazer disso noventa e oito por cento da vossa participação, oito músicas de cada vez com mensagens pessoais e dedicatórias a acompanhar, só me dá saudades do tempo em que tinha que ligar o gira-discos para ouvir boa música.
  • Finalmente, e acabando na primeira das grandes manias associadas do facebook, aos que jogam ou jogaram farmville só quero fazer uma pergunta: dominaram o vício, caíram na realidade e largaram a quinta, ou entraram na clandestinidade e deixaram de pedir telhas e ovelhas para não serem instantânea e implacavelmente gozados pelos amigos?

Monday, January 17, 2011

Baby Doc is also our problem

Reparei ontem no relato da imprensa do tão imprevisto quanto extraordinário regresso ao Haiti de Jean Claude Duvalier, ou Baby Doc, o ditador que aterrorizou de forma impiedosa o país de 1971, quando herdou o poder do seu pai, François Papa Doc Duvalier, até 1986, quando foi obrigado a exilar-se perante a revolta de uma população farta de sangue e pobreza.

Pai e filho carregaram durante décadas o duvidoso mérito de terem referência assegurada quando se falava dos dirigentes mais sanguinários do planeta, mantendo um regime autoritário e fortemente repressivo que juntava ao habitual culto de personalidade do líder a originalidade de explorar o misticismo, através do voodoo, aumentando exponencialmente as possibilidades de infligir medo a uma população pobre e supersticiosa, que mantinha dominada com a sua temível polícia secreta, os Tonton Macoute, num percurso de vergonha que naquela altura da história provavelmente só Pol Pot e os seus Khmers conseguiram exceder.

Duas décadas e meia depois de ter sido obrigado a abandonar o Haiti, Baby Doc regressa, sem grandes explicações e dizendo apenas que quer "ajudar" um país em pleno turbilhão político, enquanto aguarda uma polémica segunda volta das presidenciais, e um ano após o terramoto que devastou o território e do qual este está muito longe de ter recuperado. Claro que a relevância de tudo isto, para quem vive em qualquer outro lugar do mundo, é reduzida, e sempre foi, porque afinal o cenário deste filme não passa de um pedaço de ilha nas Caraíbas, sem particular peso económico ou estratégico, nem o número suficiente de empresas e residentes estrangeiros necessário para chamar a atenção do mundo ou comovê-lo quando os fumos da tragédia se desvanecem.

O que torna o regresso de Baby Doc relevante não é, no entanto, o futuro dos haitianos, por mais simpatia que estes nos mereçam. O que torna esta notícia digna de menção é ser um bom exemplo de como, em tempos de dificuldade extrema, a memória pode ser curta, e facilmente aceitamos o que até aí parecia inaceitável, pensando no impensável, como sermos salvos por quem já nos levou ao inferno ou libertados pelo nosso anterior carcereiro.

Se pensarmos que a palavra de longe mais dita e escrita nos dias de hoje, dos jornais aos posts do facebook, da publicidade às conversas de café, é "crise", então se calhar pode também não ser má ideia percebermos como o regresso de Baby Doc é, só pelo facto de ser possível, um problema de todos nós.

Wednesday, January 12, 2011

A China que (se) ajuda

As recentes notícias sobre a compra de dívida pública europeia pela China têm levantado alguma celeuma deste lado do Mundo, celeuma essa que não é amenizada pela decisão dos responsáveis chineses de proibirem os europeus de divulgarem os termos exactos dos negócios realizados.

É linear para qualquer pessoa que um negócio destes dificilmente se fará sem contrapartidas, e o recente apoio de 5 mil milhões de euros dado pela China aos armadores gregos para modernizarem as suas frotas, com a contrapartida das compras serem feitas em estaleiros chineses, é um exemplo do que previsivelmente se seguirá noutros países, mas também é perfeitamente admissível que o Governo chinês prefira limitar a informação que é pública, porque sabe que quaisquer que sejam os termos estes causariam inevitavelmente reacções adversas, sendo irrelevante se estas se baseariam na realidade ou em preconceitos e medos que os EUA e União Europeia têm crescente dificuldade em esconder, e que não têm deixado de ser explorados pelo establishment político, nomeadamente do lado de lá do Atlântico.

O tom geral das reacções de europeus, e até de americanos, que vêem com desconforto a entrada do gigante asiático no que é tradicionalmente o seu quintal, tem sido pautado pela desconfiança, nomeadamente sobre que contrapartidas escondidas impuseram os chineses aos países europeus com dificuldades de financiamento, e para não variar sobre quais as reais intenções dos habitualmente enigmáticos dirigentes do Reino do Meio.

Apesar da abundância de teorias de conspiração, e da polémica levantada com as contrapartidas do negócio naval grego, nada disto é novo: as potências ocidentais fizeram-no décadas a fio, enquanto engordaram para além do limite do razoável a dívida do terceiro mundo para que este lhes comprasse bens e equipamentos, normalmente rentabilizando tecnologias que estavam já desactualizadas nos países de origem, e com um descaramento muito superior aos chineses na forma como denominando este esquema de "ajudas ao desenvolvimento" ainda conseguiram a proeza de ficar bem vistos junto de uma opinião pública geralmente ignorante ou desatenta.

Se, como em tudo na vida, há efectivamente dois lados nesta moeda, neste caso prefiro o positivo. Se é certo que não há almoços grátis, e o apoio chinês não deverá ter sido dado sem contrapartidas, a razão de fundo é sintomática de como o nosso mundo está a mudar, e como a globalização comprova cada vez mais a ideia, ou se quisermos o ideal, de que o comércio livre, e a interdependência económica que este acarreta, são a melhor via para um mundo próspero e livre de guerra.

Neste caso a China apoia a Europa porque, ao contrário do que acontecia há umas décadas atrás com a "ajuda" (assim, com aspas e tudo) dada aos países em vias de desenvolvimento, a desgraça da economia europeia arrastaria consigo a própria China, hoje feita fábrica do mundo, que se veria privada de um dos seus principais mercados.

É assim, mais do que uma questão de altruísmo, uma necessidade de auto-preservação para este governo autoritário e pragmático que ainda se intitula comunista. Os senhores de Pequim sabem que o regime poderia não resistir aos problemas sociais que seriam causados pelo desemprego, nomeadamente entre os milhões de chineses que abandonam todos os anos o campo para trabalhar nas cidades, inevitável caso o seu explosivo crescimento actual abrandasse para valores mais normais, como certamente sucederia se a Europa entrasse em recessão prolongada.

Poucos o saberão, mas há várias vozes credíveis, entre quem acompanha a China moderna, que defendem que uma das razões de fundo para ter ocorrido a revolta que se viu em Tiananmen não foi a simples ânsia por liberdade e democracia, provocada pela uma demissão mal aceite de um dirigente estimado pela população, mas um motivo bem mais prosaico: a subida da inflação nos meses anteriores, que fez disparar o preço de muitos bens essenciais, e espalhou o descontentamento generalizado entre a população. Se há coisa que os dirigentes de Pequim aprenderam aí é que o seu futuro depende, ironicamente para um País que ainda se intitula comunista, única e exclusivamente da sua capacidade de dar emprego, comida e meios de enriquecer a um povo cada vez mais exigente.

Friday, January 7, 2011

Que tristeza de Alegre

Manuel Alegre disse ontem em entrevista televisiva que houve "favorecimento" nas mais valias que Cavaco Silva recolheu na venda das suas acções da SLN, e que este configura "gestão danosa", tendo que haver um "julgamento político" no próximo dia 23 quando os portugueses acorrerem às urnas. Um cheiro a crime, em suma. No meio da argumentação não se coibiu de afirmar, com um ar de quem sabe muito bem o que está a dizer e um olhar cúmplice atirado à entrevistadora, que "aquele preço não é o preço de mercado" e que "resta saber" se o mesmo tratamento foi estendido a outros accionistas. Fez-me lembrar Octávio Machado, ou melhor a caricatura do Palmelão, e o seu já famoso "vocês sabem do que eu estou a falar".

Tudo isto poderia fazer vagamente sentido se não fosse um detalhe: é que ao contrário do que sucedia com o BPN, as acções da SLN não eram cotadas em bolsa, e por isso o "preço de mercado" de que fala Alegre era simplesmente o preço que alguém estaria disposto a dar por elas, numa transacção privada com o qual ninguém tem a ver senão os envolvidos, desde que se cumpra a Lei, como foi claramente o caso. Ainda por cima, e para não falar do facto de Alegre não ser capaz sequer de reconciliar o seu próprio livro de cheques, quanto mais entender algo que vá além de noções básicas de economia, pelas notícias que têm surgido a posição de Cavaco nem foi alienada a um preço particularmente favorável.

O argumento de Alegre, de sugerir que a venda foi feita acima do valor pelo qual a empresa estava avaliada, deixando implícito que esta valorização era objectivamente conhecida, e que foi feito um preço "para amigos" no caso de Cavaco, revela maldade ou ignorância. Se é ignorância, é preocupante não só que não entenda o que se passa como que não seja capaz de ouvir alguém, ou pior ainda que não exista alguém, que lhe explique que não pode falar em "preço de mercado" quando claramente não entende o conceito, e a forma como este não se aplica igualmente a uma empresa que esteja ou não cotada, a um negócio público e regulado ou a um negócio privado.

Se é maldade, é pena que um homem que, tal como o seu adversário, embora num registo inteiramente diferente, sempre se quis distinguir do comum dos políticos, usando regularmente termos pomposos para elogiar a sua própria verticalidade e idealismo, acabe a última campanha eleitoral da sua vida a fazer jogo sujo.

O Cavaco que não dá Cavaco

O ar grave e claramente irritado de Cavaco Silva que os noticiários da noite de ontem repetiram incessantemente não dava lugar a dúvidas, quase dispensando o som para se perceber o teor das declarações do professor de Boliqueime: tinha decidido que não ia alimentar mais a novela do BPN, e de agora em diante não ia falar mais sobre o assunto, porque todos os esclarecimentos que havia para dar já tinham sido dados. Do lado de Alegre, no entanto, a gritaria continua, e a imagem que fica, para parafrasear o comentário de um amigo meu, é que "Cavaco não está a dar cavaco de tudo" o que há para dizer sobre as acções que comprou.

Sucede no entanto que, por mais que eu não goste da personagem que nos desgovernou durante uma década, ele tem razão, porque já deu cavaco das acções há muito tempo, e declarou quantas comprou, quantas vendeu, e os valores envolvidos, e estes dados, longe de serem segredo, são públicos há muito tempo, e a imprensa não deixou de os noticiar quando os acontecimentos se precipitaram após a crise financeira de Setembro de 2008, e os rabos de palha do BPN começaram a cheirar mal demais para se poder continuar a ignorar o assunto.

Cavaco de facto já tinha admitido abertamente, e sem que ninguém se escandalizasse, que tinha feito um investimento financeiro de cerca de 100.00 euros em 2001 (portanto quando estava fora da política) e que em 2003 pediu à SLN para vender as acções e encaixou a correspondente mais valia. Investiu o seu dinheiro, ganho com o seu trabalho, e realizou um excelente investimento, e em si nada disto é imoral ou errado. Quando Cavaco vendeu as suas acções faltavam cinco anos para o BPN entrar em rotura, e não há nada que nos permita afirmar que nesse momento o actual Presidente da República tivesse alguma informação menos positiva sobre a empresa ou sobre a conduta dos seus responsáveis.

Ao ser colocado perante a questão no debate com Alegre, Cavaco tentou colocar a bola no outro lado do campo, e questionou a responsabilidade da actual administração (uma forma pouco subtil de apontar o dedo ao Governo e ao PS que apoia Alegre) no beco sem saída a que, mais de dois anos depois da queda do BPN, o Governo de facto conduziu o banco, isto depois de ter recusado um plano de viabilização por privados, liderado por Miguel Cadilhe, que mesmo no pior cenário sairia mais barato ao contribuinte do que o pesadelo a que agora nos arriscamos.

O argumento tem lógica, como aliás a recente entrevista de Fernando Ulrich desmonta com precisão cirúrgica, mas Alegre foi esperto e soube explorar a repulsa da populaça pelo verdadeiro caso de polícia que foi o percurso do BPN, o expoente máximo da corrupção e promiscuidade entre o poder financeiro, político e económico, e sem factos que de facto o suportassem conseguiu aqui uma forma de associar Cavaco ao pior que o cavaquismo gerou, obrigando a descer à terra o homem que normalmente fala "dos políticos" como se ele próprio não fosse um deles, tocado pelos mesmos vícios e soberba que encontramos em qualquer homem de poder. Cavaco sobrestimou a sua própria credibilidade, ou por outro lado subestimou a força da indignação geral com a aventura dos seus ex-ajudantes, e deu o flanco de uma forma que vai acabar por marcar uma campanha que foi desde o início completamente soporífera, e em última análise se arrisca a marcar a presidência.

Tudo valeu até aqui, e parece-me que tudo continuará a valer, para prolongar o mais possível a agonia do candidato da direita. Primeiro o argumento idiota, mais um, de Alegre, de que era importante saber-se "a quem vendeu ele as acções", tentando lançar um isco que ninguém nos media foi suficientemente burro para agarrar (as acções foram vendidas a uma empresa da própria SLN, mas quem determinou o destinatário foi a empresa, e não Cavaco, e mesmo não sendo especialista na matéria acho razoável assumir que não é incomum uma empresa comprar acções próprias que um pequeno accionista deseje vender) de imediato, mas que acabou por colar na agenda dos jornalistas.

Antes deste argumento Alegre tinha recorrido a um outro , ainda mais idiota, mas que sendo um bom 'sound bite' teve melhor acolhimento nos media, de que Cavaco era responsável pelo que aconteceu no BPN, "porque quem tinha acções da SLN era de facto dono do BPN". Não falando sequer do raciocínio primário que não se admite a um candidato ao mais alto cargo político da Nação, o argumento não resiste à análise mais elementar, de como será possível responsabilizar alguém que, para além de saír da holding cinco anos antes da queda do Banco, fez um investimento de 100.000 euros num grupo com largas dezenas de empresas, milhares de colaboradores e activos avaliados em milhares de milhões de euros.


O que neste momento parece claro é que a imagem de Cavaco sairá sempre beliscada desta aventura, porque a sua aura de seriedade inatacável sofre pela associação ao BPN, mas mesmo que a espuma de desvaneça e a verdade dos factos faça desaparecer a actual impressão, de que o professor de Finanças Públicas não está a contar a história na íntegra, há outra conclusão a retirar do episódio, que é tudo menos positiva.

O outra conclusão é que desde que passe tempo suficiente para a memória se desvanecer, e falo do tipo de memória que nos diz o que comemos hoje ao almoço, é possível requentar notícias velhas para criar histórias novas, pelo que qualquer político minimamente hábil consegue manipular estes media e estes jornalistas, mal preparados e pouco rigorosos, que se preocupam mais em correr com o megafone de político em político, e de histeria em histeria, do que em destrinçar o discurso dos factos, tratando das coisas a partir da sua substância e marcando a agenda noticiosa em função do que é relevante para o público, e não da declaração bombástica do momento.

Thursday, November 25, 2010

Felinni e o rapaz do meu bairro

Hoje conheci uma personagem de Felinni, um daqueles peculiares integrantes da anónima massa popular que o realizador italiano não hesitaria em escolher para um dos seus filmes, como qualquer outro transeunte que o tivesse hipnotizado no bulício de uma rua de Roma.

O que proporcionou o encontro foi estar em mudanças, processo no qual ele era um dos braços contratados, e ter calhado ter a sua companhia no meu carro, desafogando a cabina da camioneta que transportava o mobiliário. Num garatujar ininteligível que só o contexto diria tratar-se da bela língua portuguesa, foi desfiando a sua ladainha, a princípio parecendo indiferente às minhas respostas, depois parecendo indiferente à sua ausência.

Mesmo assim, contou-me o que sinteticamente se poderia designar pela sua história de vida, de menino que frequentou a escola camarária em Campo de Ourique, onde nasceu e viveu até aos nove anos, ao orgulhoso trintão que desfia as casas que a Câmara de Lisboa ofereceu à família, em bairros menos recomendáveis depois de terminada a luz solar, com o mesmo orgulho com que o jovem quadro se refere à última propriedade adquirida pelo progenitor em prime location.

Mas o que o definia, mais do que tudo isso, era a sua curiosidade quase infantil, um misto de homem que tenta compreender a função das várias coisas que vai recolhendo e de pequeno malandro que nos pergunta subliminarmente se não lhe queremos oferecer o objecto em causa. O momento em que comecei a tomar consciência de que não habitávamos o mesmo planeta foi quando confundiu uma box de televisão por cabo com um leitor de DVD, e mesmo depois de esclarecido insistiu em questionar se o comando não seria mesmo de um DVD, sempre sem perder um delicioso sorriso a dois dedos de distância de palerma.

Poderia perorar sobre o que perdem os pobres de espírito, mas isso não só seria pretensiosismo como estaria a passar ao lado da questão, e a questão é como nós humanos conseguimos o prodígio de ser simultaneamente únicos, e portanto diferentes uns dos outros, e manter algo que nos identifica e torna parte do mesmo todo.

Com o seu ar cândido, o seu português macarrónico, a enorme curiosidade apenas comparável à incorrigível ignorância, a vida sofrida que relatava com aparente tranquilidade, nada no personagem que encontrei poderia ser mais diferente de mim próprio, e facilmente se diria que vivíamos em mundos diferentes.

Afinal, e por mais que haja alguma verdade na nossa diferença, o que a viagem na sua improvável companhia me recordou foi que no fundo, por mais que o nosso quotidiano se viva a um universo de distância, e o nosso caminho se tenha feito em mundos diferentes, continuaremos sempre a ser também dois rapazes que fizeram a escola no mesmo bairro.

Tuesday, November 2, 2010

Um Táxi de Leste

Há pouco deparei com algo que me deu que pensar. Com o carro na oficina há já algum tempo tenho voltado a usar no quotidiano formas de transporte que já tinham abandonado os meus hábitos, como o táxi, o metro ou até o velho eléctrico lisboeta, e foi isso que levou à estranha coincidência de me terem calhado condutores originários do Leste europeu nos últimos três ou quatro táxis que apanhei.

Se ao apanhar o primeiro estranhei, porque era pouco comum ainda há meia dúzia de anos, quando a minha utilização do táxi era muito mais frequente, com este último fiquei seguro que não se tratava de uma coincidência.

Se isto me parece relevante é porque acho que poucas coisas dizem mais sobre uma sociedade do que os seus táxis, esse misto de consultório de psicanálise e amostra da vox populi. A estrita divisão entre táxis pretos e small taxis de Londres, estratificando diferentes níveis de exigência e qualificação para veículos e condutores — os condutores dos londrinos táxis tradicionais passam por um longo processo de formação, com testes que os obrigam a estabelecer de memória, rua a rua, o percurso entre quaisquer dos milhares de ruas e pontos de interesse da capital inglesa, ao ponto de existirem estudos científicos que comprovam que há zonas do seu cérebro, responsáveis pela memória espacial, que se desenvolvem de uma forma acima do normal — como seria de esperar num país onde a separação de classes e a correspondente diferença de rituais é tão clara, o predomínio de determinadas nacionalidades ou etnias entre os condutores de táxi de cidades do centro da Europa, com diferenças de país para país, o táxi da aldeia que divide o espaço entre os interessados em cada percurso, porque não faria sentido deixar alguém em terra para garantir a privacidade de um só cliente, a diferença entre o uso generoso do palavrão pelo taxista lisboeta e a forma delicada como o de Cascais nunca deixa de parar numa passadeira, todas estas coisas são em maior ou menor medida reflexo das características do meio onde, literalmente, se movimentam.

Foi por isso que registei como russos, ucranianos ou moldavos se juntaram à inigualável galeria de cromos que já ocuparam o nosso imaginário ao volante de um táxi lisboeta. Os condutores da Lisboa pacata e por vezes quase rural do Estado Novo, que ainda hoje nos fazem associar à profissão o fogareiro com que aqueciam a sua marmita durante a hora de almoço, os condutores de fartos bigodes, orgulhosos apêndices capilares que resistiram incólumes à travessia entre os anos 7o e 90, os orgulhosos detentores de pendões futebolísticos que invariavelmente ocupavam o retrovisor, esse espelho de truques e ângulos espertos para vislumbrar as pernas das meninas do banco traseiro, e até os homens de fé, os verdadeiros e os que tinham mantido a santinha no tablier para não ofender as convicções do patrão, tudo isto foram coisas que sempre se integraram imperceptivelmente na nossa vida, às vezes como um espelho fiel do mundo que nos esperava no exterior quando abríamos a porta do táxi.

Ao ver um condutor originário do Leste da Europa não é também difícil chegar a algumas conclusões. Ao contrário de um trabalho na construção civil, por exemplo, a condução de um táxi exige o mínimo domínio tanto da língua como da geografia da cidade, pelo que é um tipo de trabalho que pressupõe um nível de integração que não se pode esperar de um imigrante temporário, mas apenas de alguém que já fez de Portugal, ou mesmo de Lisboa, sua casa.

Por outro lado, e se há características nos taxistas que são comuns e têm a ver com a cultura e hábitos da cidade, mais até do que do País (e Lisboa e Cascais são um bom exemplo), há outras que têm a ver com a origem e história de cada um. Os homens acima dos cinquenta anos, normalmente de bairros tradicionais de Lisboa, taxistas toda a vida, foram sendo progressivamente substituídos por quem vinha de todo o País e encontrava no táxi uma forma dura mas relativamente estável de ganhar algum dinheiro, a que se juntaram mais tarde brasileiros de vários tipos e proveniências, e essas mudanças acompanharam a forma como Portugal e a sua capital mudaram nos últimos trinta anos.

No caso dos homens de Leste, ao volante de definem-se pela escassez do verbo, normalmente apenas se dirigindo ao cliente quando não entendem o caminho e, e ao contrário dos seus congéneres autóctones sugerem imediatamente que o cliente indique a rota da sua preferência, não parecendo, no entanto, atrapalhar-se quando não lhes é indicada a forma de chegar ao destino, seguindo o caminho mais lógico assim que iniciam a marcha. São eficientes e silenciosos, uma boa inovação no universo variado de possibilidades que nos espera no lugar do condutor, literalmente da testemunha de jeová até ao esquizofrénico que adora o diabo e conduz sob a influência de substâncias proibidas, embora já tenha tido pelo menos um exemplo de como puxar conversa com um moldavo pode redundar numa crítica social cujo tom que não seria estranho um cinquentão da Madragoa ou da Mouraria.

De uma forma ou de outra, se este novo grupo de taxistas é um sintoma da forma como a minha cidade está a mudar, não é de todo um sintoma que me incomode. Como em todas as profissões é praticada por gente boa e por gente má, e não acredito que mudar a côr ou origem, dos condutores de táxi ou de qualquer outra profissão, altere a proporção de anjos e demónios entre cada um deles.

Disse que a ideia de fazer este post me surgiu a partir da minha última viagem de táxi, o que é verdade, mas há outra razão: há pouco uma amiga minha, que me tem dado o prazer de acompanhar atentamente o que escrevo aqui, e celebra hoje o seu aniversário, pedia-me que escrevesse alguma coisa para assinalar o dia. Se à primeira vista não parece haver relação entre as duas coisas, o facto é que ela regressou hoje mesmo do Cairo, seguramente um dos sítios do mundo onde eu já gostava de ter apanhado um táxi.

Thursday, October 28, 2010

Um eléctrico chamado Lisboa

Acabei agora de fazer algo que há uns bons anos não fazia, neste caso o percurso do escritório até casa de eléctrico. Tenho o meu carro na oficina, e um dos eléctricos da Carris passava providencialmente ao lado de um multibanco onde levantava dinheiro, pelo que entrei sem hesitar mas inteiramente por acaso nesta viagem que, mais do que trazer-me de Santos até Campo de Ourique, me levou a passear durante dez minutos pela minha infância e juventude.

Nasci no início da década de 70, portanto quando os carros eléctricos da Carris eram, mais do que uma curiosidade ou um meio de transporte utilizado por quem tem tempo disponível ou o privilégio de ter o eixo da sua vida a corresponder com uma das poucas linhas ainda existentes, uma das formas de locomoção preferidas dos lisboetas, indispensável antes do advento do crédito e da consequente democratização do automóvel, porque se hoje ter um carro é quase tão comum como ter electrodomésticos em casa, nos anos 70 a situação estava muito longe de ser essa.

No início dos anos 80 recordo-me da minha euforia infantil quando, juntamente com as minhas duas irmãs mais novas, aproveitámos todas as ocasiões que uma breve vinda de férias de Macau, onde então vivíamos, nos proporcionou para apreciar as colinas lisboetas dentro de um eléctrico, percorrendo a linha do início até ao seu final, dois pontos que normalmente coincidiam, esgotando a paciência da nossa Mãe quando reivindicávamos uma volta adicional depois de utilizado o primeiro bilhete.

Quando regressei, com os meus onze anos, apanhava todos os dias a carreira 28 para vencer a distância entre a casa dos meus pais e o colégio, cujo portão ficava em frente a uma curva apertada dos carris, circunstância que normalmente aproveitávamos para saltar do eléctrico em andamento.

Saltar de um eléctrico em andamento era aliás algo que qualquer pequeno lisboeta experimentava, com a cumplicidade dos amigos e sem os pais alguma vez sonharem, quando chegava aos dez ou onze anos, antes da paranóia da segurança e da real evolução do mundo ter levado a que as crianças deixassem de andar sozinhas pela cidade, pelo que me lembro como se fosse ontem da forma como aprendi a saltar após a tremenda queda que dei da primeira, e última, vez que o fiz sem perceber que tinha que travar no momento de contacto com o solo, inclinando o tronco para trás para contrariar o natural efeito da gravidade.

Quando cheguei à adolescência o eléctrico foi perdendo importância no meu quotidiano, substituído pelo táxi nas saídas nocturnas e pelo autocarro ou metro quando ia aos meus treinos de rugby, a única actividade diurna regular que me obrigava a percorrer distâncias maiores. Ainda aproveitei, nesta fase, o lado romântico da marcha lenta dos carros sobre os carris, e lembro-me perfeitamente, com dezassete anos, de ter decidido ir de Santos às Amoreiras pelo caminho mais longo, aproveitando a quase hora e meia que faltava para o início da sessão de cinema a que ia com a minha namorada da altura para dar um passeio pela cidade.

Hoje, num eléctrico que foi ficando progressivamente vazio até estar apenas eu e o condutor, o que não terá deixado de contribuir para a nostalgia que me foi assaltando, tive a clara noção de uma coisa: que Lisboa irá sempre continuar, a dominar as margens do Tejo como nos últimos quatro milénios, mas no dia em que os eléctricos deixarem de funcionar uma parte da cidade onde nasci e cresci terá, também ela, desaparecido.

Monday, October 25, 2010

Palavras presas

Às vezes há coisas que parece que sempre soubemos mas que, por uma ou outra razão, nunca expressámos em voz alta. Para mim, que gosto particularmente de palavras e do que se pode fazer com elas, os momentos em que constato isso mesmo, que acabei de descobrir uma nova expressão para algo que sempre soube mas nunca disse, são sempre especiais.

Foi por isso que há pouco, a conversar com uma amiga minha numa conversa aparentemente tão comum quanto pode ser uma conversa entre amigos a uma segunda-feira, quando o meu cérebro em particular não está disponível para seriedade ou profundidade, senti um desses momentos de revelação.

O momento surgiu a propósito de uma frase que ela tinha terminado com reticências, que eu interpretei, correctamente, como sendo o equivalente a um suspiro, dos que emitimos quando há algo que sabemos mas não queremos ou conseguimos dizer: ao referir como às vezes falam mais do que qualquer coisa que disséssemos ela pronunciou, certeira, que os suspiros "são as palavras que estão presas, e vão saindo aos poucos".

Saturday, October 23, 2010

Patriotas de esquerda

Nasci dois anos antes do 25 de Abril, por isso no período em que aprendi a falar e a explorar a língua portuguesa tive o privilégio de conviver com um vocabulário político mais alargado do que a maioria das crianças de hoje. Não era apenas a diversidade que fazia a diferença, mas também a forma como o uso de determinadas palavras nos conotava com a nossa posição no espectro político-partidário, havendo palavras que eram claramente de direita, e outras de esquerda.

O melhor exemplo disso é a palavra 'Pátria', usada até à exaustão pelo Estado Novo no seu discurso e propaganda, explorando o nacionalismo como factor de coesão e identificação, como aliás era próprio dos cânones da altura, dito de outra forma como se esperaria de uma ditadura conservadora em meados do Século XX.

Sempre me considerei um patriota, mas cresci numa altura em que a palavra não era de uso comum, e mais do que isso era usada por uns e nunca por outros, porque tinha uma conotação definida. As poucas ocasiões em que se dizia 'Pátria' em público, com entusiasmo e sem pudor, eram ironicamente essas grandes manifestações populares, frequentadas de igual forma por direita e esquerda, que são os jogos de futebol da Selecção, enquanto se cantava o hino nacional.

O mundo muda e evolui, e se no século passado o nacionalismo era o traço que definia as ditaduras de direita hoje esta associação parece ultrapassada, e é curioso ver como a China, esse bastião da construção do socialismo e modelo para tantos intelectuais de esquerda nos anos 6o, ou no nosso caso 70, usa o nacionalismo para preencher o espaço vazio deixado por um Estado com uma ideologia cada vez menos definida, que de comunismo apenas tem o nome.

No entanto, se se há coisas que não se alteram, e se mantêm constantes independentemente da força da mudança que as rodeie, uma dessas coisas é o Partido Comunista Português, que ainda há uns dias foi capaz de atacar o comité Nobel, por servir os interesses do capitalismo americano, ao dar o prémio da Paz a um dissidente chinês, julgado e preso pelo regime do país.

Do PCP espera-se que seja hoje, como em 1974, o último partido a recorrer a um léxico que não lhe seja familiar, e todos sabemos como com os comunistas a escolha de palavras nunca é acidental. Foi por isso que hoje, quando percorria as ruas do meu bairro, ao passar por uma sede do PCP aqui existente, apanhei uma das maiores surpresas da minha vida, ao ver o painel sobre a varanda, que dizia, claro e objectivo como é timbre dos comunistas, no seu inconfundível fundo vermelho e letras amarelas, foice e martelo na posição da ordem: "Com o PCP, uma política patriótica e de esquerda".

Wednesday, October 20, 2010

Ou vai ou taxa

Entre as múltiplos pequenos e grandes aumentos de impostos com que o Governo nos brindou, num dos mais pesados Orçamentos de Estado de que há memória, há um que parece recolher o repúdio unânime, neste caso da taxa que, incluída na factura de electricidade, temos que pagar para sustentar a RTP.

Todas as críticas apontam para a falta de sentido de custear uma empresa cronicamente deficitária, e quase toda a gente que ouvi pronunciar-se diz que se recusaria terminantemente a pagar a taxa se tivesse a possibilidade de o fazer, para além do argumento imbatível de que, claro, não faz sentido uma pessoa pagar se raramente vê a RTP. Sucede que este raciocínio é errado, e é errado porque está incompleto.

Para completar o quadro não vou falar da forma como o buraco financeiro da RTP surgiu, e mesmo descontando alguma má gestão que possa ter havido como o peso maior recai na sucessão vergonhosa de medidas governamentais desastradas, que primeiro, numa daquelas ideias populares e mal pensadas em que o cavaquismo foi fértil, extinguiram a taxa sem estudar alternativas (estudos posteriores revelaram que a RTP daria lucro com a exploração da publicidadde, já depois das privadas existirem, se a taxa se tivesse mantido), como se o problema de financiamento da televisão pública se resolvesse por si mesmo, depois levaram a RTP a vender a sua rede emissora à PT por um valor inferior ao que passou a pagar por dois anos de utilização, e finalmente persistiram no incumprimento constante, no tempo e nos montantes, do pagamento das indemnizações definidas pelo próprio Estado, o que obrigou a empresa a recorrer sistematicamente à banca para se manter em funcionamento (são situações destas que nos ajudam a perceber porque os lucros dos bancos portugueses parecem ser à prova de crise) que naturalmente não fizeram mais do que agravar o problema.

O raciocíno está incompleto porque aquilo que pagamos não é só a RTP-1, e se olharmos para o resto vemos que existe espaço para programação relevante que não tem audiência de massas, como é o caso da RTP-2, e existem canais internacionais que prestam um serviço valioso na defesa da língua e cultura portuguesas no mundo, porque não é preciso ser diplomata ou empresário para perceber que poder discutir a jornada anterior da Superliga antes do início de uma conversa séria num país africano tem o seu valor, ou o importante que é os filhos dos nossos quatro milhões de emigrantes saberem mais do País onde têm as raízes do que histórias antigas que ouvem da boca dos pais.

Está incompleto porque não devíamos simplesmente discutir se queremos ou não pagar tudo o que a actual televisão pública implica ou acabar com ela, porque a verdadeira opção a tomar nunca será essa, mas antes o que pode ser importante manter, e por isso merece ser pago, e o que não, e por isso deve desaparecer.

Se estudarmos o assunto podemos concluir que nem fará sentido manter um primeiro canal como o actual, concorrendo directamente com os privados numa situação dúbia em que a única diferença é a duração dos intervalos, resultando numa estação que deveria prestar serviço público mas está efectivamente tão refém dos seus resultados de audiência quanto os seus concorrentes privados, porque depende o valor dos blocos publicitários, e estes dependem directamente dos resultados, para atenuar o crónico défice financeiro.

Podemos também concluir que mais vale acabar com alguns canais, que não temos dinheiro para pagar mais que os que prestem efectivamente serviço público, e que o Estado apenas deve gastar dinheiro se a televisão servir para elevar o nível cultural da audiência ou para promover a língua e cultura portuguesas.

Podemos concluir que o contribuinte não tem que pagar nada, ou que tem que pagar tudo o que agora paga, mas essa não é a verdadeira questão.

A verdadeira questão é que temos que analisar o assunto como um todo complexo e que merece uma análise aprofundada, e não como um sound bite em que a conversa predominante é que ninguém devia pagar taxa porque de facto ninguém vê muito a RTP. Temos acima de tudo que evitar o mais fácil, que é parar o debate na frase consensual que alguém diz e toda a gente subscreve e repete sem pensar demasiado no assunto nem admitir discussão, seja o assunto televisão ou as despesas de saúde do País.

A verdadeira questão é que nestes tempos em que tudo é discutível, particularmente os investimentos, gastos e decisões que envolvem os nossos impostos e o nosso futuro, e mais do que isso em que tudo é contestável, é de todo desaconselhável vermos as questões a preto e branco, como escolhas entre positivo e negativo, porque há muitas coisas que precisamos de pôr a funcionar de uma forma diferente, e não que simplesmente desapareçam por não merecerem a nossa simpatia, e se passarmos a vida a decidir só entre certo e o errado, com base apenas no que sabemos ou achamos, sem considerar que haja coisas que nos escapam, muita coisa ficará pelo caminho.

Tuesday, October 19, 2010

Porque não aumentá-los?

Há um fio condutor comum de todos os ataques que se lêem e ouvem ao estado de coisas, e à forma nebulosa como muitas de pessoas na esfera pública parecem ter rendimentos muitíssimo acima dos outros portugueses e, este sim o verdadeiro problema, muito acima das suas aparentes capacidades ou qualificações. Em bom português, no aparelho de Estado, já para não falar desse mundo nebuloso das empresas públicas ou na esfera de influência governamental, há gente a mais, a ganhar dinheiro a mais.

A outra parte do problema, de que se fala menos mas que é patente tanto nos pequenos detalhes como nos grandes momentos — de que o melhor exemplo é o Orçamento de Estado que o próprio responsável político definiu como "o mais importante dos últimos 25 anos", entregue incompleto a minutos do prazo legal, depois de no ano passado, em mais um dos arreliadores problema informáticos que parecem perseguir este regime, ter sido entregue numa pen vazia — que é o da mais pura e simples incompetência grassar pelo escalão mais alto do Estado, começando no aparelho dos ministérios, que deveria representar a elite das pessoas que servem a causa pública, e acabando no próprio Governo. No fundo, o problema do regime é o da qualidade, do nível de qualificação de quem ocupa postos de responsabilidade.

Falarmos de falta de qualidade de alguns dirigentes e dos salários exagerados de outros leva-nos muitas vezes a confundir as coisas, e a aceitar a ideia que os políticos são demasiado bem pagos. Isso está errado, e é parte do problema. O presidente da República tem um salário bruto ligeiramente abaixo dos 7.500 euros, e o de um ministro representa 65% desse valor, ou perto de 4.900 euros antes de impostos, o que antes de ajudas de custo ou outros factores (já lá vamos) representará à volta de três mil euros limpos por mês.

Assumindo que o ministro deva ser a referência salarial daqueles que com ele trabalham directamente é razoável assumir também que, começando pelo chefe de gabinete, ninguém leve para casa ao final do mês mais de três mil euros de salário base. Quem tenha a mais pequena ideia de como funciona o governo sabe que em alguns gabinetes ministeriais trabalha-se muito, por vezes doze, catorze ou mesmo dezasseis horas por dia, portanto independentemente de outras considerações temos que assumir que se trata em muitos casos de um trabalho difícil e desgastante.

A questão, de que todos temos consciência, mas que evitamos sempre discutir é simples: não podemos pedir que os políticos sejam pessoas de qualidade pagando-lhes menos do que muitos administradores de médias empresas recebem por mês. É muito fácil comparar a remuneração do Presidente da República à do empregado de escritório, que recebe pouco mais que o salário mínimo, mas é perigoso e irrealista fazê-lo, porque o presidente ou chefe do Governo estão longe de ser dos salários mais desproporcionados relativamente à média dos portugueses, e há no País quem ganhe mais que o mais alto representante do Estado e mereça cada euro que recebe.

Pagar pouco aos políticos é triplamente perverso:

É perverso porque afasta pessoas capazes que não sejam economicamente independentes antes de ocuparem um cargo político, porque mesmo aceitando uma redução de rendimento por uma questão de serviço público os dois mil e muitos euros de salário de um secretário de Estado não pagam uma vida de classe média-alta num centro urbano, nomeadamente para quem tenha filhos, ou seja os compromissos que as pessoas potencialmente capazes de dar um contributo têm antes de ir para o Governo.

É perverso porque convida à artimanha para complementar um rendimento que é de senso comum ser inferior ao razoável, e aí entram as ajudas de custo, os cartões de crédito e outros mecanismos que apenas dependem da seriedade do utilizador para não serem usados abusivamente, convida à criatividade para remunerar irregularmente (recorrendo a institutos ou empresas externas em vez do próprio ministério) alguns assessores cujo salário foi nivelado pela anterior remuneração privada e leva ao efectivo desperdício de dinheiros públicos quando os ministérios têm que recorrer a assessorias externas, realizadas por empresas, para terem acessos às competências que não têm forma de contratar individualmente pelo seu custo real, para além de aumentar a permeabilidade do Governo face a influências do exterior, porque os mesmos consultores que apoiam o Estado não deixam naturalmente de aproveitar as oportunidades que surgem para conseguir tratamento privilegiado para os seus clientes privados.

E é, acima de tudo, perverso porque torna aceitável a ideia de que a verdadeira compensação financeira, que numa sociedade desenvolvida acompanha o sucesso em todas as áreas da vida profissional, é recebida após a política pelos contactos e experiência que se obteve, o que por um lado é um convite a que esta agenda e contactos se vão estabelecendo ainda enquanto o cargo é exercido, e por outro lado mina as fundações do que deve ser a independência do poder político face aos interesses económicos predominantes, agravando uma promiscuidade que nunca é totalmente evitável entre o dinheiro e a condução dos negócios do Estado.

É assim claro que se queremos qualidade na política temos, como sucede em qualquer outro domínio da vida moderna, de a remunerar de forma correspondente.

No entanto, e como vivendo em democracia limitarmo-nos a aumentar os políticos sem repensarmos a forma como a sua organização gasta o dinheiro é impraticável, e mais do que isso acarretaria o risco de não resolver o problema da qualidade, temos que pensar no que teria que mudar para que esta alteração produzisse uma mudança efectiva.

Há por isso cinco coisas que têm que ser salvaguardadas para que esta ideia possa ser viável:

Em primeiro lugar que as remunerações sejam fixadas de forma independente, porque qualquer salário fixado pelo próprio beneficiário tem sempre a sua credibilidade ferida na origem, e que haja uma entidade ou forma de fixação que não permita que os responsáveis políticos sejam, como são agora obrigados a ser, juízes em causa própria.

Em segundo lugar, que sejam adequadas à responsabilidade da função, ou seja comparáveis a remunerações equivalentes no sector privado, idealmente calculadas com base nestas, sem deixar de ter em conta que a possibilidade de prestar um serviço à comunidade e, porque não dizê-lo, e a oportunidade de influenciar o rumo político do País e alargar conhecimentos e contactos, levem sempre a que a remuneração pública não exceda o seu equivalente privado.

Em terceiro lugar, a estrutura que apoia o trabalho dos políticos, dos gabinetes ministeriais ao apoio aos deputados e grupos parlamentares, tem que ser reavaliada do ponto de vista organizacional, como se faria em qualquer empresa privada, definindo uma orgânica que resolva as efectivas necessidades de cada ministério e da Assembleia da República, evitado a contratação selvagem de assessores remunerados directa e indirectamente, diminuindo ao mínimo indispensável o recurso a prestadores de serviços externos para assegurar necessidades que a própria máquina estatal deveria suprir por si, e limitando a capacidade dos políticos reorganizarem à sua medida, a cada mudança de Governo ou até de cargo, o funcionamento do que são efectivamente estruturas públicas, diminuindo as perdas de eficiência que estes processos de mudança sempre acarretam, diminuindo o período de adaptação da máquina do Estado a cada novo responsável político e reduzindo a margem de desorganização que possa ser induzida pelas reestruturações feitas por políticos menos competentes.

Em quarto lugar, é necessária total e absoluta transparência, e todos os gastos dos gabinetes devem ser publicados online, no caso dos salários anualmente, e no caso dos gastos extraordinários mensalmente, evitando não apenas a suspeição e falta de crédito que sempre advém da opacidade como alguns excessos conhecidos à posteriori, como a conta de flores do gabinete do Primeiro Ministro, ou pelo menos que estes sejam feitos sem uma justificação clara.

Finalmente, porque o sistema precisa, mais do que nunca, de sangue e ideias novas, devia ser mudada a forma de contratação dos cargos de dependência directa de políticos, como sejam os gabinetes ministeriais e principais institutos públicos, aproveitando terem por norma uma duração finita, equivalente ao do mandato do político ou administração em causa, para criar a possibilidade de uma comissão temporária de serviço público, capaz de atrair pessoas de qualidade que não desejem fazer carreira permanente no Estado mas estejam disponíveis para prestar um serviço útil ao País durante um período definido, aproveitando a remuneração mais elevada para melhorar, como sucede com qualquer empresa, o nível qualitativo dos recursos humanos, recrutando pessoas no mercado de trabalho em geral e nas melhores universidades, como faz qualquer empresa de primeira linha, e não fechando a porta ao recrutamento interno, ou seja aos melhores funcionários públicos de carreira, deixando-os concorrer em igualdade de circunstâncias aos mesmos lugares, aproveitando as pessoas com genuína qualidade e empenho que (também) existem no Estado, e sua inestimável experiência do funcionamento da coisa pública.

É verdade que pela natureza sensível da actividade política, nas posições mais próximas dos decisores a confiança pessoal é essencial, pelo que teria que ser preservada a capacidade de escolha directa de parte dos colaboradores, mas a abertura do recrutamento atrairia muita gente capaz para os vários níveis do aparelho de suporte do Governo e Parlamento, e o próprio nível das pessoas que os responsáveis políticos, incluindo o Primeiro Ministro, poderiam convidar com sucesso subiria garantidamente.

O organigrama do Parlamento, Governo e Presidência e as formas de remuneração deveriam ser fixadas por um comité de sábios, um grupo de pessoas reconhecidamente capazes e independentes, de diferentes áreas políticas, com credibilidade técnica e experiência tanto na área pública ou governamental como na privada, comissão esta que seria nomeada com o acordo de pelo menos dois terços de apoio dos partidos com assento de parlamentar, sob compromisso dos dois maiores partidos de implementarem as respectivas recomendações.

Definir um quadro técnico claro para permitir uma decisão política transparente e aceite por todos não é um processo novo no nosso País, apesar de poucas vezes nos lembrarmos disso, e já produziu resultados no passado com outros temas, e em momentos menos graves que o actual, pelo que não há razões para não acreditar que uma iniciativa deste tipo não pudesse ser bem sucedida.

Tenho a certeza que se devida e aprofundadamente estudado este tema é resolúvel, no sentido em que é simultaneamente possível aumentar a qualidade dos políticos e reduzir desperdícios e ineficácias, ao mesmo tempo remunerando melhor quem preste serviço público e reduzindo o custo da estrutura necessária para legislar e governar o País. Enquanto a organização que é necessária para dirigir os assuntos do Estado mantiver as suas limitações actuais, e a salarial é claramente uma delas, a tendência para criar estruturas paralelas que possam realizar o trabalho que os ministérios não conseguem com a rapidez ou eficácia necessárias, continuará, e com esta o descontrolo na despesa e a proliferação de zonas cinzentas, com camadas de organismos que duplicam competências de ministérios a acumularem-se ao sabor das sucessivas conveniências políticas.

Tenho também a certeza de que uma medida destas contribuiria para moralizar a remuneração dos gestores e responsáveis de institutos públicos, porque os mecanismos de indexação que existiam para moderar os salários destes dirigentes associando-os ao salário do Presidente da República ou responsável do governo (existem 1.100 funcionários que ganham mais que o primeiro ministro) poderiam voltar a ser aplicados, uma vez que a respectiva remuneração fosse mais realista e condizente com a importância real dos principais cargos do Estado, em vez da actual situação, em que é admissível que o presidente do Conselho de Administração de um hospital público ganhe duas vezes mais que o Presidente da República, não porque o princípio em si faça sentido mas porque se assume que este último tem um salário irrealisticamente baixo.

Para resolver este problema é apenas preciso coragem para enfrentá-lo e explicá-lo à população, que é tudo o que tem faltado aos nossos políticos — veja-se a opacidade do acordo a que PS e PSD chegaram em Maio para as medidas do primeiro PEC, para ter um exemplo recente — nos caso de alguns políticos a coragem para deixar de lado a retórica que compara ordenados fabris a salários de governantes, e confiança na inteligência das pessoas para perceber o que está em causa. E é acima de tudo preciso noção de uma coisa: que ou aumentamos a qualidade dos nossos políticos ou a qualidade do sistema em si não melhorará, e muito dificilmente saíremos da actual situação com gente da qualidade da que actualmente ocupa os escalões mais altos do aparelho de Estado.

Monday, October 18, 2010

Quero o meu País de volta

Nasci em 1972, quando o regime era outro e o território do meu País ia de Vila Real às Portas do Cerco, que marcavam a fronteira entre o último bastião do império português e a China vermelho-vivo de Mao Tse Tung.

Em 1974, antes de ter idade para me lembrar de algo de forma substantiva tudo mudou, e as minhas primeiras memórias a sério são de um quotidiano agitado em que os Governos pareciam mudar todos os dias, palavras de ordem eram gritadas na rua e expressões como "povo", "camarada", "luta de classes" e "construção do socialismo" saíram de súbito dos livros de história, onde estavam em qualquer outro país europeu, e passaram a figurar no nosso vocabulário quotidiano.

Ao dia em que os tanques saíram à rua e o regime caiu sem sangue seguiram-se dois anos de catarse colectiva e de libertação da energia acumulada durante quatro décadas, o fim da guerra colonial que o povo e o exército já não queriam e a descolonização feita sem planeamento e sem pensar nos interesses dos portugueses que estavam em África, os excessos socialistas que ainda hoje pagamos no domínio económico e, acima de tudo, a descoberta da liberdade política para muitos portugueses, que como todas as descobertas não foi isenta de erros, abusos e problemas.

Fui com os meus pais para o Oriente, e vivi em Macau desde os primeiros dias de 1980, e para além do impacto que teve sobre mim o privilégio que então foi viver durante três anos num lugar que estava, comparativamente com Lisboa, muito mais próximo do primeiro mundo, ganhei um sentido, que nunca perdi, de que a nossa história, nacionalidade e língua são muito maiores do que o nosso quotidiano e infortúnios parecem indicar.

Lembro-me, ao regressar, da época do 'apertar o cinto', da intervenção do FMI sem a qual o Estado português teria entrado em insolvência, do Governo do Bloco Central que representou uma hoje impensável união para defender o bem maior. Lembro-me da euforia da direita à volta da candidatura de Freitas do Amaral, que mais do que tudo dizia como numa década o País tinha conseguido chegar a relativa paz consigo mesmo, e era possível não se ser de esquerda sem nos chamarem fascistas ou porem em causa as nossas credenciais democráticas.

Lembro-me de como a rodagem do Citroen de Cavaco Silva acabou no providencial líder da nova fase da nossa vida, e como o desconhecido ministro das finanças de Sá Carneiro cavalgou a vaga de centro-direita gerada pelas presidenciais para conseguir a primeira maioria absoluta da nossa jovem democracia. Reparei, nesse momento, que o PSD se alheou do pagamento das dívidas de campanha de Freitas do Amaral, que como homem honrado que era, como eram a maioria dos políticos de então, as pagou do seu bolso, com anos a fio de trabalho, não convocando conferências de imprensa nem fazendo da sua vida um queixume sobre a palavra a que lhe faltaram.

Foi aí, no final do primeiro Governo de Cavaco Silva, provavelmente o último governo com verdadeiro nível que este país conheceu, que começou a situação que agora vivemos. Foi a partir daí que a ocupação do aparelho de Estado pelo partido do Governo passou a fazer parte das regalias do vencedor, foi aí que germinou, nas privatizações e nos privilégios distribuídos a alguns, o regime cinzento em que o poder económico condiciona o poder político a seu favor e a nosso desfavor, foi aí que começou a espiral de perda de qualidade humana, intelectual e política dos homens e mulheres que nos governam.

Hoje sentimos ter batido no fundo. A política, uma das mais nobres actividades de uma sociedade civilizada, não é hoje em Portugal uma ocupação séria ou bem frequentada, e ninguém com qualidade profissional e intelectual que esteja no seu perfeito juízo arrisca o seu nome associando-se à corja que habita os aparelhos partidários e ocupa, em sucessivas camadas que as novas eleições nunca purgam e apenas reforçam, os vários níveis da administração local e central.

O problema central é de qualidade, e é demasiado gritante para admitir explicações bondosas. O Orçamento de Estado mais importante dos últimos 25 anos foi feito em cima do joelho, entregue fora de horas e incompleto, e o mais escandaloso é a forma como ninguém parece reparar ou exigir explicações sérias ao Primeiro Ministro por uma das mais escandalosas e terceiro mundistas demonstrações de incompetência de que me lembro.

A OCDE vem apregoar a necessidade de medidas draconianas no corte do défice, com o ministro das Finanças a assistir às declarações sem ter sequer o decoro de disfarçar a satisfação, e o que é mais escandaloso é a forma como ninguém parece reparar como se utilizou uma organização internacional para assumir a responsabilidade das medidas tomadas por quem elegemos, e como de caminho Portugal foi, neste processo, menorizado e humilhado pelas mesmíssimas pessoas que têm que defender o seu prestígio e posição no mundo.

Não vivo do passado e não quero o Portugal orgulhoso e poderoso que só existia nos livros de história e na propaganda do Estado Novo. Não quero que regressem os anos dourados dos descobrimentos ou do ouro do Brasil, porque D. João II só há um e o Brasil, esse sim, é a única garantia que a nossa língua manterá alguma importância no mundo do Século XXI, mas dar-nos-á apenas e só a importância que soubermos merecer. Não quero que estes senhores que agora mandam mudem de forma de ser, porque deixei de acreditar na sua capacidade para defender o nome de Portugal e o bem estar dos portugueses, e porque não tenho ilusões que alguma vez estejam intelectualmente preparados, para não falar de outro tipo de qualidades, para conduzir o País neste mundo complicado em que vivemos.

O que eu quero é outra coisa, ao mesmo tempo simples e dificílima de conseguir sem mudar tudo, e não vou deixar de a querer independentemente de como a situação evolua: quero o meu País de volta.

Sunday, October 17, 2010

A história que nunca acabará bem

Li hoje no Público que a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, assumiu o fracasso de criar uma verdadeira sociedade multicultural no país, afirmando que não foi possível conseguir uma sociedade que permitisse a convivência harmoniosa entre pessoas de diferentes origens, culturas e religiões, e apelando aos emigrantes para que "façam mais" para se integrar, dominar o idioma, conhecer a cultura e costumes, em suma transformarem-se em alemães em vez de transformarem, pela sua presença, a sociedade alemã em algo de diferente e mais diverso.

O discurso de Merkel, que seria sempre de assinalar pela negativa em qualquer país europeu, chama particularmente a atenção tratando-se da Alemanha, um país cujos últimos cem anos de história, e papel em duas guerras mundiais, não permitem nem ao mais optimista alimentar dúvidas sobre a seriedade da questão.

E se tratar-se da Alemanha leva o problema a ser ainda mais sério do que normalmente seria, esta preocupação agrava-se quando se percebemos que não se tratou de um deslize ou declaração solta, mas antes de uma posição de compromisso num debate nacional em curso no país, e que a aparente fraca defesa do direito à diferença, cultural ou religiosa, que define um país politicamente evoluído, tem que ter com a corrente dominante da opinião pública - trinta por cento dos alemães defendem o repatriamento de emigrantes, quase sessenta por cento que se limitem as práticas religiosas dos muçulmanos - que mostra clara predisposição para mesmo as posições mais intolerantes poderem ser aceites, ou pelo menos ouvidas, na sociedade alemã.

O problema maior é que não é apenas na Alemanha que isto sucede. A proibição dos minaretes na Suiça, a enorme polémica à volta do novo centro islâmico em Nova Iorque - que demonstrou não apenas o pior da sociedade americana mas também o melhor, pela forma intransigente como as autoridades da cidade colocaram a defesa da liberdade, neste caso de culto, acima da sensibilidade de uma nação que ainda não esqueceu o dia mais traumático da sua história - a violência espontânea ou organizada contra os muçulmanos e os seus locais de culto nos EUA e Europa contam uma história mais ampla e assustadora, de como a religião é cada vez mais uma força de divisão e não de tolerância, capaz até de separar ou descriminar comunidades há muito perfeitamente integradas, que são agora vistas com outros olhos e nova desconfiança pelos seus vizinhos de sempre.

A verdade é que esta não é uma questão que seja passível de ser vista a preto ou branco, e se as nossas liberdades e garantias são a matriz que nos distingue e dá legitimidade como civilização, temos também que conviver com o que é efectivamente uma enorme área cinzenta, de como lidar com um pequeno conjunto de radicais que as utilizam para nos atacar, subvertendo uma religião tolerante como o Islão para justificar a mais injustificável (porque cobarde, perpetrada contra civis inocentes) violência, e subvertendo os direitos que existem para nos defender de condutas incorrectas do Estado ou do Governo, ou seja para proteger a nossa liberdade, para atacar esse mesmo regime e ideias de liberdade.

A resposta não é simples e não será exactamente igual para alemães, americanos, franceses ou portugueses. Para além disso, neste contexto de recessão económica e aumento do desemprego, que sempre aumentam o ressentimento contra a mão de obra proveniente de outro país ou cultura, qualquer político ocidental enfrenta uma escolha difícil, entre defender a tolerância e correr o risco de perder votos e ser retirado do poder ou não censurar a opinião dominante e até juntar-se a ela, questionando a bondade ou até a viabilidade do multiculturalismo, como fez hoje Merkel.

A história diz-nos que são estes momentos que distinguem os grandes estadistas dos políticos medíocres. Ao ver a ameaça Nazi que se formava sobre a Europa Winston Churchill dedicou todas as suas forças a promover a ideia de que o Reino Unido tinha que se preparar para a guerra que aí vinha, e não podia em circunstância alguma confiar no governo alemão e em qualquer compromisso que este aparentemente estabelecesse. Foi ostracizado pelo próprio partido, uma mão provavelmente chegaria para contar os primeiros colegas de bancada que o apoiaram no parlamento, e realizou uma longa travessia do deserto, cujo desfecho, como todos sabemos, o tornaria no homem providencial a quem devemos, provavelmente mais que a qualquer outro, a vitória aliada na II Guerra Mundial.

Ao ver a senhora Merkel ou o senhor Sarkozy, já para não falar nessa colorida personagem de novela mexicana que é Berlusconi, cederem sistematicamente à tentação de agradar às suas opiniões públicas, expulsando emigrantes ou assumindo posições que põem em causa o seu papel na sociedade, entendemos um pouco o que deve ter sentido Churchill em 1938, quando as tropas nazis estavam já em território da actual República Checa, ao ver Neville Chamberlain, que o antecedeu como primeiro-ministro, regressar de uma conferência com Hitler em Munique e apresentar, com o ar de satisfação que ostenta quem cumpriu a sua missão, à chegada a solo inglês, o papel assinado por este, garantindo que as duas nações não voltariam a entrar em Guerra, perante o alívio e alegria gerais da população do País.

A verdade é que se a via escolhida para enfrentar o desafio do radicalismo islâmico for a da repressão, do profiling por critérios religiosos, da expulsão ou ostracização dos muçulmanos que vivem nos países ocidentais, os fundamentalistas estarão a ganhar a guerra, porque cada mesquita incendiada na Europa representará muitos novos recrutas para a causa, e este desfecho será tanto mais amargo quando tivémos, neste caminho, que abdicar de liberdades que tanto custaram a conquistar, derrotando-nos a nós mesmos, sem que no processo tenhamos de facto eliminado a ameaça que o terrorismo põe à nossa segurança.

Benjamin Franklin, um dos pais da nação americana, dizia que uma sociedade que está disposta a perder liberdade para ter segurança não merece nenhuma das duas. O problema, nestas coisas, é que é preciso homens de verdadeira visão para ultrapassar o medo que as sociedades, como as pessoas, têm do que não lhes é familiar. É preciso homens que vejam para além do seu próprio interesse imediato, e sejam capazes de arriscar o seu futuro político ou até a sua vida para defender o bem maior, e neste caso sejam capazes de perceber que a única forma de ganhar a guerra contra o terrorismo é com mais tolerância e integração, e não menos, mesmo que isto implique que alguns maus elementos vão abusar dessa tolerância para nos atacar.

Existem dezasseis milhões de muçulmanos em países da União Europeia, muitos dos quais não conheceram outro país ou cultura do que aquela em que actualmente vivem. Na próxima geração os líderes europeus terão que tomar decisões cruciais para o futuro destas pessoas, e com elas para o futuro de todos nós, e da Europa tolerante e aberta em que a maior parte de nós cresceu. A questão é complexa e não oferece respostas óbvias, mas uma coisa é certa: o sucesso vai depender dos líderes que escolhemos, porque a única coisa certa em tudo isto é que se continuarmos a ser conduzidos por gente de vistas curtas, como são a maioria dos actuais responsáveis políticos, quaisquer que sejam os desenvolvimentos seguintes esta história nunca acabará bem.

Thursday, October 14, 2010

A culpa é nossa

Nos últimos tempos o tom predominante do discurso público tem sido a revolta, pelo estado a que o País chegou e pela forma como a política nacional mais parece uma peça de teatro de mau gosto, em que final feliz algum salvará o desempenho dos protagonistas de uma avaliação vergonhosa.

Queixamo-nos do estado em que o Governo, este e os anteriores, deixaram o nosso querido jardim à beira-mar plantado. Queixamo-nos da forma sistemática como os militantes proeminentes do partido do Governo, deste e dos anteriores, ocuparam sem modéstia ou decoro todos os bem remunerados lugares da esfera do Estado, tanto a que sabemos existir como o nebuloso e incontrolável mundo-sombra dos institutos que duplicam competências do Governo sem o incómodo do controlo público e das empresas que dependem, por voto ou favor, dos vários ministérios, ocupando e alternando entre si as sinecuras mais cobiçadas, conquistando estatuto social e desafogo financeiro com base num mérito que apenas eles próprios e os seus próximos vêem.

Nesta voragem de culpabilização culpamos todos os que estão bem, sem distinguir se o sucesso chegou por mérito ou favor, se a via do conforto e até da riqueza vieram do que se sabe e se criou ou de quem se conhece e favoreceu. A raiva contra quem vence é própria dos invejosos, e sendo um dos traços negros do carácter nacional é também uma armadilha, uma das piores em que podemos caír, porque nos prende nas malhas da nossa própria impotência, alimentando o ressentimento de quem vê o sucesso sentado no lugar dos resignados, dos que decidiram morrer com a sua própria incapacidade de lá chegar, vivendo numa prisão que para alguns apenas existe no espírito, e para outros que é consequência lógica da nossa atávica pobreza, da inexistência de recursos e de capacidade ou tradição de educar convenientemente as massas, no fundo do nosso destino inevitavelmente medíocre.

Deixámos que a noção de que a porcaria é a regra minasse, de forma aparentemente irreversível, a nossa moral, destruindo a confiança mínima que uma sociedade civilizada tem que ter nas instituições que a separam da barbárie. Por todo o lado se ouvem gritos e palavras de ordem, agora amplificados com o novo megafone de babel da internet, da blogosfera às redes sociais, contra a corja que nos domina e parece ocupar todos os bons empregos, receber todas as benesses, e continuar a habitar um mundo imune a crises ou variações da inflação, numa existência desprovida da incerteza financeira quanto ao dia seguinte que acompanha o quotidiano a grande maioria dos portugueses.

Tudo isto parece certo e, no entanto, tudo isto está errado.

Está errado porque esta corja que suga, a diferente ritmo e intensidade, mas com igual tenacidade, do administrador indicado pelo Governo ao funcionário sem rosto, função ou utilidade prática, o sangue vital da nossa economia, o capital gerado pela proporção exagerada que o Estado captura dos nossos já magros proventos e pelo crónico endividamento público, esta corja de que nos queixamos e que diariamente atacamos sem quartel, esta corja que consegue reunir o ódio unânime dos portugueses como poucas coisas, esta corja de que se fala, somos todos nós.

Está errado porque sempre somos moralistas em causa alheia e raramente em causa própria. Os mesmos portugueses que são capazes de apanhar dois autocarros para participar numa manifestação não recusariam, no dia seguinte ou uns anos depois, um lugar bem remunerado na farta teta do erário público que um primo ou amigo bem colocado lhes fizesse aterrar no colo.

Está errado porque adiamos as decisões difíceis esperando adiar as consequências, começamos por pedir crédito para ter dinheiro para as férias ou comprar outro carro, acabamos a pedir outro crédito para pagar os excessos do anterior, encomendamos um trabalho que não sabemos como vamos pagar, e depois de tudo isto esperamos que quem elegemos para nos governar actue de forma diferente, e surpreendemo-nos quando não o faz, e quando o País sofre as consequências de se ter endividado consistente e irremediavalmente durante quase quatro décadas.

Está errado porque culpamos os políticos por não terem coragem ou tomarem medidas difíceis, por não fazerem as reformas que têm que fazer, mas seríamos incapazes de dar o leme a alguém que dissesse que cem mil pessoas terão que passar de um emprego pago pelo Estado para um futuro incerto para que o País funcione eficazmente, e não desperdice o dinheiro de todos.

Está errado porque somos capazes de protestar relativamente aos exagero de impostos que pagamos mas não de questionar a saúde e educação praticamente gratuitas, as auto-estradas às quais não queremos que regressem portagens ou qualquer coisa que não sejam os privilégios e mordomias da classe dominante, ou dito de outra forma todos os privilégios a que nós próprios não temos acesso.

Podemos continuar a viver como até aqui, e qualquer pessoa inteligente dirá mesmo que esse é o desfecho mais provável, senão mesmo o único possível, e aí, com maior ou menor intensidade consoante a altura da vaga que fustigue o País a cada momento, a culpa será sempre dos outros, "deles", da corja.

Ou podemos mudar, e assumir que a corja somos nós, que ao apontar um dedo a quem nos governa temos três dedos apontados para nós mesmos, que o sucesso não existe sem passar por sacrifícios, que o emprego ideal é aquele em que trabalhamos mais e somos compensados por isso, e não o que atrapalha o menos possível a nossa vida e apesar disso nos remunera bem, que aqueles que elegermos serão sempre o nosso reflexo, pelo que é a cada um de nós que cabe praticar o exemplo que gostava de ver dado pelos que nos deveriam liderar.

Um céptico, ou alguém que simplesmente conheça a nossa história, dirá que nunca perceberemos isto, e que as coisas nunca mudarão, porque não existe vontade ou expectativa de que efectivamente mudem, porque não existem recursos ou capital intelectual para produzir a riqueza necessária para progredirmos, porque preferimos uma existência pobre e previsível ao risco implícito na ambição.

Normalmente sou céptico, mas neste tema também me lembro sempre de uma frase, a de na vida termos que optar entre tentar mudar, por pouco que seja, o nosso País, ou mudarmo-nos para outro. Por isso, resistindo ao cepticismo só me apetece dizer: se isto é assim, e se os culpados somos todos, se temos que nos questionar se recusaríamos um salário de duzentos mil euros para um lugar para o qual não somos qualificados antes de poder criticar quem o faz, se percebermos que a corja somos nós é o primeiro passo para acabarmos com ela, então, nesse caso, quanto mais cedo nos apercebermos disso melhor.